terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Exemplos clínicos de Personalidade Paranóide

1

A senhora A., com cerca de 50 anos, tendo sido nomeada para chefe de uma
repartição de finanças acentuou traços pré-existentes. Sempre que vê duas ou
mais pessoas reunidas, é assaltada pela suspeita de que estão a falar mal dela e
para se defender reúne o pessoal administrativo, avisando de que tem espiões
espalhados por toda a sala.

Recorreu um sem número de vezes à esquadra da polícia referindo a existência de um plano para a liquidar.

De cada vez que o telefone toca imagina que é um aviso ameaçador.


Rodrigues, V.A. & Gonçalves, L. (2009). Patologia da Personalidade - Teoria, Clínica e Terapêutica (3ª ed). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.


2

Neil é um homem com vinte e oito anos de idade que trabalha há dois anos como mecânico de automóveis na oficina de um concessionário. O seu trabalho é considerado como razoavelmente bom, mas é difícil trabalhar com ele porque é susceptível, desconfiado e se sente facilmente menosprezado. O seu comportamento já provocou numerosas discussões com outros mecânicos e supervisores. O concessionário mostra-se relutante em despedi-lo porque é difícil encontrar bons mecânicos.

Há pouco tempo, foi chamado ao gabinete do chefe por ter discutido com dois colegas de trabalho. A discussão começou quando um cliente trouxe um automóvel antigo para reparação na oficina. O trabalho foi entregue a Neil. A tarefa não lhe agradou e ele protestou que era injusto, porque demoraria muito tempo a obter as peças necessárias à reparação. Neil disse a um dos colegas que o supervisor lhe tinha confiado o trabalho para o colocar mal. Quando o colega lhe manifestou as suas dúvidas sobre tal facto, Neil olhou-o e disse "Pensas que estoua mentir. Vocês são todos iguais. Querem ver-se livres de mim". O colega ficou zangado, mas acabou por se afaster a abanar a cabeça.

Neil começou a trabalhar no automóvel e fez uma lista das peças necessárias. Todos os dias ia-se certificar se as peças já tinham chegado. Depois de vários dias e perguntas, o chefe do departamento disse-lhe que esperasse até ser avisado da chegada das peças. Neil convenceu-se se que o homem estava a tentar prejudicar-lhe o trabalho e assim lho disse. O responsável pelas peças replicou "Estás maluco" e continuou a trabalhar. Quando as peças chegaram, Neil descobriu que tinham sido enviadas duas erradas. Acusou o colega e o chefe do departamento de peças de estarem a sabotar o seu trabalho. A discussão acabou quando o chefe chamou Neil ao seu gabinete para lhe pôr termo. Embora esta discussão tenha sido mais exaltada do que o habitual, era muito semelhante às que ele costumava ter com os colegas. Neil provoca mal-estar ás pessoas, mesmo quando está calmo e pronto para o trabalho. Ele também assusta as funcionárias da contabilidade. Uma delas afirmou "Quando ele anda aqui fica a olhar para mim e observa tudo o que faço. É assustador. Fico tão nervosa que cometo erros. Então ele irrita-se, depois mostra-se condescendente e aponta os meus erros". Outra das mulheres acrescentou "Ele é um bloco de gelo. Parece educado, mas cuidado com ele. Há um ano irritou-se comigo por eu não ter notado imediatamente que ele estava junto da minha secretária. Ainda hoje se enfurece com isso".


Fauman, M.A. (2002). Guia de estudo para o DSM-IV TR. Lisboa: Climepsi.

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